Muito cedo na vida descobri que as coisas eram difíceis e que os fatos aleatórios não me favoreciam e estavam fora do meu controle.
Assim comecei a tentar mudar as coisas: influir nos fatos e situações. Mas isso, rapidamente, não deu certo porque as coisas não estão sob o meu controle.
Então, não sem o uso de muita racionalização mal feita, concluí que o problema não era tanto os fatos e sim as pessoas, e a organização da sociedade.
Me engajei, então, na árdua tarefa de tentar mudar as pessoas e a sociedade. É claro que isso não deu certo. Nem poderia, porque as pessoas são o que são e, naturalmente, não gostam de ser contestadas dentro daquilo que são. E quem sou eu pra dizer que estão erradas?
Cheguei portanto à conclusão que o problema estava em mim. Eu deveria modificar a mim mesmo para ver o mundo de outra forma. Isso me pareceu uma revelação, como no conto "alienista" de Machado de Assis quando o doutor solta todos os internos da casa dos alienados e interna a si mesmo.
Essa idéia carreguei comigo por muitos anos, isso de me aprimorar de estar em uma missão de auto-conhecimento. Era um dos únicos lemas da escola que eu lembrava, e certamente o único com o qual me identificava:
"Sou hoje melhor do que ontem. Serei amanhã melhor do que hoje."
Não importam as dificuldades, contanto que se esteja a cada dia um pouco melhor, que você se torne uma pessoa mais ética, mais humana, mais sábia, mais compreensiva, mais tranquila, mais feliz. Muitas pessoas enveredam por esse caminho. Fazem Ioga, ou terapia, ou desenvolvem atividades artísticas, entram em cursos para aperfeiçoamento, se tornam cientistas, cuidam de sua carreira, cuidam de sua saúde, cuidam do seu corpo, fazem exercícios ou praticam esportes semanalmente. Tudo em nome do auto-aperfeiçoamento.
Só que, claro, você espera um dia chegar a ser esse ser melhor no qual você está a cada dia se tornando.
Mas, então, me ocorreu que esse dia nunca chega. E que os problemas persistem, e é essa a sutil artimanha do ego, você vê.
Quem genuinamente se tornou uma pessoa melhor? Eu não. E a maioria das pessoas à minha volta também não. O que é ser melhor? Difícil dizer.
Geralmente nós cobramos mudanças de nós mesmos, mas não cobramos dos nossos cães, por exemplo. Você quer que o peixe de seu aquário seja um peixe melhor? Não? Por que não?
Por que nós precisamos de aperfeiçoamento e outros seres da natureza não? Precisaria uma árvore se tornar melhor do que ela é? A quem importa o nosso auto-aperfeiçoamento?
Por que nós precisamos de aperfeiçoamento e outros seres da natureza não? Precisaria uma árvore se tornar melhor do que ela é? A quem importa o nosso auto-aperfeiçoamento?
Poderia-se argumentar que queremos nos aperfeiçoar para tentarmos ser mais felizes, porque não somos muito. Mas estamos fazendo isso? Estariam nossas leituras, nossa ioga, nossa meditação, nosso cooper, nossa universidade, nosso empenho, nossa psicanálise nos modificando para sermos mais felizes? Ou seria isso tudo um sutil, elaborado e bem feito teatro de se julgar melhor, um círculo vicioso de aquisição de uma pseudo-virtude, dentro de uma pseudo-humildade. Eu aceito a todos serenamente, portanto sou melhor do que quem não aceita a todos serenamente. Eu faço orações pela paz, portanto sou mais pacífico que os demais. Sou mais sereno, sou mais compreensivo, sou mais espiritualizado, sou menos espiritualizado mas respeito mais quem é espiritualizado, vejo mais valor nos pobres, vejo mais valor nos ignorantes, vejo mais valor em mim mesmo portanto aceito melhor os outros.
Tudo isso parece uma roda de egoísmo na qual nos envolvemos. Uma disfarçada forma de competição, tão característica dos nossos tempos.
Tudo isso parece uma roda de egoísmo na qual nos envolvemos. Uma disfarçada forma de competição, tão característica dos nossos tempos.
Entâo, nos empenhamos em não ser mais egoístas. Só que caímos no mesmo círculo vicioso. Eu vejo que sou egoísta portanto sou um visionário, ou sou mais humilde porque posso assumir meus próprios erros.
O egoísmo do egoísmo.
Não podemos ser menos egoistas conscientemente porque não podemos melhorar a nós mesmos.
Melhorar a nós mesmos é como levantar a nós mesmos no ar com nossas próprias mãos. Não podemos fazer isso. Você conhece alguma máquina quebrada capaz de consertar ela mesma?
E se não podemos fazer isso, nem mudar as circunstãncias, nem mudar as pessoas, o que podemos fazer?
- Nada!
Que alívio, não? Não podemos fazer nada. Este fardo não está nos nossos ombros.
Podemos contribuir mais para nosso bem estar nos livrando da responsabilidade de sermos o que não somos, de termos que mudar o que não podemos mudar. Não podemos mudar nada, aí está. Que relaxante sensação.
Queremos modificar a nós mesmos e modificar o mundo porque não queremos passar pela difícil situação de aceitar a nós mesmos e o mundo como imperfeitos. Queremos perpetuar a ilusão narcísica de perfeição. Não sou perfeito, mas se eu me aprimorar pouco a pouco, um dia... Um dia o que? Um dia você vai se dar conta que esteve a fazer muito "esforço" e não se sente melhor. Não se sente perfeito. Ou, em outras palavras, não saciou a sua fome narcisista.
Queremos modificar a nós mesmos e modificar o mundo porque não queremos passar pela difícil situação de aceitar a nós mesmos e o mundo como imperfeitos. Queremos perpetuar a ilusão narcísica de perfeição. Não sou perfeito, mas se eu me aprimorar pouco a pouco, um dia... Um dia o que? Um dia você vai se dar conta que esteve a fazer muito "esforço" e não se sente melhor. Não se sente perfeito. Ou, em outras palavras, não saciou a sua fome narcisista.
Você não precisa ser melhor, nem precisa modificar o mundo para que o mundo seja melhor. O mundo já existia sem a sua interferência. A sociedade gosta de propagar arrogantemente que o mundo depende dela. Não. Ele não depende. O mundo vai muito bem, obrigado.
E nós também existimos sem a nossa interferência. Não é a sua realização consciente que faz você respirar. Você respira, anda, pisca os olhos sem estar consciente disso objetivamente. Você, assim como o seu cão e o peixe do aquário é uma entidade natural. Porque você precisa melhorar? Porque você precisa ser mais do que é?
Ao invés de nos engajarmos na impossível tarefa de modificar tudo para melhor, podemos simplesmente observar e usufruir. Desfrutar do que nos é dado, aquilo que os cientistas chamam de fenômeno e os religiosos chamam de benção. Desfrutar de nossas bençãos, do que nos foi dado, do que está ao alcance de nossas mãos.
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